Oratória de formatura – Engenharia Ambiental UFMS 2010

fevereiro 13th, 2011

Fui escolhido para ser o orador da minha turma de Engenharia Ambiental, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Demorei alguns meses para escrever o texto, mas valeu a pena! Ainda queria expressar um pouco mais da mistura de sentimentos que batem nesses momentos, mas meu tempo era limitado e a criatividade negou serviço.

“Havia em uma floresta, próxima daqui, dois pequenos grupos de animais. Viviam tranquilamente, sem quaisquer preocupações ou maiores temores. Um dos grupos era reconhecido pelos grandes conhecimentos e pela dedicação de seus membros: todos passavam longas horas estudando, aprendendo sobre a natureza e sobre o funcionamento da floresta. Eram sábios, e davam grande valor aos estudos, mas também tinham suas horas de festa e diversão.

Outro grupo era menos tranquilo. Preferiam viver a vida sem se preocupar com nada, aproveitar suas horas em brincadeiras, festas e bebedeiras. Apesar disso, cumpriam corretamente suas responsabilidades, apesar de alguns atrasos raros e ocasionais, mas não era nada que causasse maiores problemas. Também eram sábios, mas a sua maneira de ser.

Os dois grupos viviam em paz, apesar de alguns atritos. Era complicado para o membro de um grupo compreender como o outro conseguia viver daquela maneira. Os primeiros não aceitavam que os do segundo gastassem tantas horas em festas, e achavam falta de respeito suas raras faltas. Já os do segundo acreditavam que os do primeiro levavam a vida demasiadamente a sério, e perdiam grande parte da diversão.

Apesar das diferenças, viviam felizes, como todo ecossistema em equilíbrio deve ser.

Um dia porém, descobriram que esta paz estava ameaçada. Um grupo de humanos estava construindo uma grande barragem, que iria inundar toda a floresta. Iriam perder suas casas.

O grupo dos sábios se reuniu e decidiram tomar alguma atitude. Estudaram durante dias, sem descansar, até encontrar alguma solução. Reviraram todos os livros possíveis, consultaram seus oráculos e finalmente decidiram o que fazer.

Enquanto isso, o segundo grupo resolveu fazer uma grande festa, que terminaria somente quando as águas começassem a subir. Ai então viraria uma festa no lago.

Ambos ficaram indignados com a atitude dos outros, mas não entraram em atrito. Sabiam que brigar entre si não seria a solução.

Mais alguns dias se passaram, e os sábios estavam prontos para realizar seu plano: iriam até a cidade conversar com os terríveis humanos. Apesar do ânimo e do extenso planejamento, havia uma cerca e uma estrada no caminho, e não conseguiram atravessar.

Voltaram cabisbaixos para a floresta, e retornaram ao planejamento. Enquanto isso a festa do segundo grupo estava rolando a toda velocidade. Levemente bêbados, nem perceberam que o primeiro grupo havia tentado salvar a floresta.

Enquanto o primeiro grupo continuava estudando, o segundo continuou a festa, e o tempo passou. Logo a água começou a subir, e a floresta foi inundada. Todos perderam suas casas, e cada um foi para um lado procurar um novo lar.

Como orador, minha função é a de apresentar um pouco de nossas experiências durante estes anos, mas não queria usar aquele discurso lugar comum sempre feito com as mesmas frases. Não queria aquelas coisas de narrador de Sessão da Tarde “esta turminha do barulho aprontou altas confusões durante seus grandes anos de faculdade”, e nem aquele papo batido de “fulano sempre estudou muito, ciclano sempre chegou atrasado”, e blá blá blá. Preferi usar uma pequena fábula, e algumas palavras sobre ela, pois essa pequena histórinha resume um pouco do que foi nossa graduação.

Nossa floresta inundou, caros colegas. Nossos anos de estudos concentrados e festas descontroladas, em parte, acabou. Podemos e devemos continuar estudando e festando, mas agora nossa floresta, nosso antigo lar, a UFMS, não estará mais lá da maneira como conhecemos durante estes últimos anos.

Não éramos tão polarizados quanto os animais da floresta, mas podemos facilmente nos identificar com algum grupo. Nenhum deles está errado, nem certo. Cada um aproveita a vida como quer, e essa liberdade é uma das melhores coisas de nossas vidas. Mesmo com atitudes e opiniões diferentes, da mesma maneira chegamos no mesmo lugar, e agora devemos procurar novas casas.

Fomos durante estes anos bons alunos. Estudamos muito, assistimos muitas aulas. Convivemos com nossos calouros e veteranos. Tivemos excelentes professores, outros nem tão bons. Passamos do Cálculo para o Tratamento de Esgotos, de Álgebra Linear para Climatologia. Cultivamos nossas amizades, criamos raízes. Mas tudo isso ficou para trás.

Agora, nossa casa é a Engenharia Ambiental. Somos Engenheiros, o tipo de profissional conhecido pelo rigor técnico, pela aplicação dos conhecimentos científicos em coisas úteis a sociedade. Mas também somos “Ambientais”, e este “Ambiental” em nosso título não significa que devemos ser ecoloucos ou radicais extremos. Significa que temos plena capacidade de entender o meio ambiente, analisá-lo, diagnosticar seus problemas e propor soluções. Além de tudo, podemos aproveitar o que há de melhor em qualquer lugar, sem danificá-lo, tornando realidade o tão sonhado desenvolvimento sustentável. Nós sabemos o quanto vale a “casa” de cada ser vivo.

Nossa formação significa a conciliação entre a tecnologia e a natureza. Demonstra uma esperança de nossa sociedade em mantê-la funcionando, sem perder suas características principais, mas também sem destruir todo o planeta. Nós podemos fazer essas mudanças, que de tão faladas e repetidas, acabaram banalizadas, assim como acontece com as atitudes necessárias para acabar com a violência e a corrupção.
Na verdade, o que precisamos fazer é agir! Trabalhar, e trabalhar muito! Exercendo nossas funções de Engenheiros Ambientais, poderemos ver e promover as mudanças necessárias. Será uma guerra praticamente sem fim.

E a pequena batalha que enfrentamos durante nossa graduação não é nada perto do que enfrentaremos pelo resto de nossas vidas. Mas nem por isso será menos divertida. Os desafios que nos esperam além da graduação, seja no mestrado que muitos de nós faremos, ou já trabalhando, sempre serão motivados pela nossa paixão pela profissão.

E é essa paixão pela profissão que espero estar desperta em cada um dos meus colegas. Em nome deles, passo a mensagem que acredito ser a mais desejada.

Confiem em nós.

Respeite a assinatura de um Engenheiro Ambiental formado pela UFMS. Tenha a certeza, ao encontrar um, que ele está preparado para exercer qualquer função inerente a profissão. Nós estudamos e trabalhamos muito, nos preparamos durante estes longos anos (que paradoxalmente passaram muito rápido), e continuaremos estudando e trabalhando para sempre sermos reconhecidos como ótimos profissionais. É essa a nossa função, e é esse o nosso sonho, que, um dia, espero ver realizado. Obrigado.”

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